Causa Mortis
Por dynablack - 13 Nov 2007

Falta de planejamento a longo prazo foi a causa mortis do tokusatsu no Brasil. Devaneios e ansiedades iniciais causaram um esgotamento de um gênero que não soube ser explorado da maneira mais correta para ter uma longevidade em nosso país. As distribuidoras trataram os produtos apenas como míseros caça-níqueis ao invés de criarem uma identidade com um público que, hoje saudosista, poderia ser fiel até os dias de hoje, além do surgimento de novos fãs ao longo dos anos.

 

 

Façamos uma análise um pouco mais apurada. No ano de 1986, a extinta Everest Video trouxe duas séries Tokusatsu para o Brasil para fins de venda em VHS (todos sabemos que se tratam de Jaspion e Changeman). Após dois anos em VHS e com tentativas de negociação, as duas séries acabam por estreiar em 1988 na finada Manchete. O sucesso avassalador faz surgir inúmeros produtos direcionados ao público consumidor da série: figurinhas, mais VHS, chiclete, pôsteres, bottons, brinquedos, etc. Os episódios são reprisados de uma forma exaustiva, mas cria um vínculo com as crianças pelas roupas coloridas e histórias de monstros gigantes devastando a Terra, mas desta vez sem herói gigante para enfrentá-los, e sim Robôs. O ano de 1988 faz a Manchete tornar-se uma das grandes no horário infantil. A Everest então resolve trazer mais uma série com identidade visual semelhante: Flashman. Os episódios são exibidos em conta-gotas, levando meses para que a série passasse além do episódio 10. Enquanto isso, Jaspion e Changeman também tem suas reprises, nunca sendo exibidos até o final. Neste ponto, por mais exaustivo que fosse o processo, a Everest fez o correto, pois poupou as séries até gerar uma expectativa no público. Tanto é que mesmo estreiando em fevereiro de 1988, Jaspion e Changeman tiveram seus episódios finais exibidos apenas na metade de 1990, fazendo com que as reprises levassem mais de 2 anos.

 

 

Mas a Everest não fez o que deveria ter feito logo ao perceber o imenso sucesso de Jaspion e Changeman: não fez um contrato de exclusividade com a Toei Company. Se este contrato de exibição no Brasil tivesse sido feito, talvez a desvairada overdose que tomou conta da TV em 1990/1991 não tivesse detonado a bomba que saturou o gênero. Acompanhe:

 

  

 

 1989: A Top Tape compra a série mais atual da Toei Company recém exibida no Japão: Jiraiya. Além disto, já compra também a série que estava em exibição: Jiban. No pacote, além de vários animês que foram lançados em VHS posteriormente, a distribuidora compra Fuun Lion Maru, aqui no Brasil chamado de Lion Man (este de propriedade da P-Productions). Os seriados estreiam em outubro de 1989 na Rede Manchete, fazendo com que a emissora possuísse 5 séries Tokusatsu em exibição simultânea.

 

 

  

 

1990: A distribuidora Oro ,no nicho que a Everest e a Top Tape já estavam investindo, trás para o Brasil Goggle V e Machineman. A emissora onde as séries foram exibidas não foi a Manchete, e sim a Bandeirantes, que retirou do ar os palhaços Atchim e Espirro para estreiar a nova roupagem do programa TV Criança. Neste mesmo ano, na última semana de Janeiro, estréia o seriado Jiban na Rede Manchete, ao passo de que a série não havia terminado nem mesmo a sua exibição no Japão! A concorrência estava desvairada: 6 seriados na Manchete e 2 na Bandeirantes. Vá contando: 8 seriados em exibição simultânea: manhã, tarde e noite (Goggle V e Machineman integraram a faixa nobre da Bandeirantes devido ao sucesso). Mais: em maio de 1990, mais uma jogada, só que agora da Everest: Metalder. O curioso é o fato da série ter sido exibida pela noite em suas primeiras semanas, uma referência clara para não haver concorrência da Everest contra ela mesma e suas séries na Manchete. Contou? São 9 seriados. Outubro vem chegando e com ele mais duas séries: uma da Oro e outra da NSato Brazil Home Video. Uma na Band e outra na Manchete. As séries são Sharivan e Cybercop. Ao todo? São 11 séries. Mas novembro e dezembro vem chegando, afinal não acabou o ano. E a toda poderosa Rede Globo, não poderia deixar de ter suas séries também, e importa Shaider e Bycrossers. Shaider tem sua estréia primeiro na TV Gazeta (meio que servindo como termômetro) e Bycrossers na finada Sessão Aventura. Saldo final? 13 Seriados, correto? Errado. No Sbt ainda tinha Spectreman nas tardes do Bozo e a Manchete consegue alguns episódios de Kaiketsu Lion Maru, ou Lion Man Branco como conheceu-se aqui. Agora sim: 15 Seriados em exibição simultânea. Quinze! No Japão em 1990 haviam 3 seriados da Toei em exibição. Aqui eram 15. Não há como não haver uma saturação em massa.

  

 

 1991: Janeiro de 1991 nos presenteia mais 3 séries inéditas, todas da Everest Video e todas na Manchete: Maskman, Kamen Rider Black (Blackman) e Spielvan (Jaspion II). O apelo em busca do público meio que beirou o desespero com o apelo em transformar Spielvan em um Jaspion II sem nenhuma característica da série anterior a não ser lembrar um pouco no visual. Essa tática fora usada em outubro de 1990 com o lançamento do LP Jaspion II no Brasil, "casualmente" com Spielvan na capa. Detalhe que em momento algum Spielvan é chamado de Jaspion II na dublagem da série, confundindo mais ainda o público que iria acompanhar a série. A Rede Globo rebusca Shaider da TV Gazeta e passa a transmitir em suas manhãs (quase madrugadas). E em março estréia Gavan, aqui chamado de Space Cop, para dividir a Sessão Aventura com os Bycrossers. Se a Band não tivesse parado de exibir suas 4 séries em 1991, teríamos no Brasil simplesmente 19 seriados em exibição simultânea. Praticamente um absurdo. Não haveria como comportar este tipo de programação por muito tempo. Neste meio de caminho, perdeu-se algumas exibições de episódios finais, como foi o caso de Jiban, Kamen Rider Black, Spielvan e Cybercop. Em junho, Spectreman dá adeus à programação do SBT. A coisa estava começando a ganhar cara de que não iria muito longe naquela situação. Bycrossers e Gavan passam para a TV Gazeta, no programa infantil Gazetinha e logo desaparecem da programação.

 

  

1992: Começa a caracterizar a decadência, após infindáveis reprises, e uma imensa gama de brinquedos e produtos a venda, os planos começam a se enfraquecer. Quase todos os seriados são minados da TV Brasileira, restando apenas Maskman e Spielvan na Rede Manchete para contar história. Isso até o final do ano, quando são sacados em definitivo da TV. Nota-se uma brutal diferença: eram 15 seriados, que foram reduzidos absurdamente para 2. Ou seja, o retorno para renovação de contrato não iria mais vigorar. Começa a época das vacas magras porque as vacas gordas foram todas mortas em 2 anos. Ao invés de servirem pedaço por pedaço nos devidos pratos, serviram um insano rodízio e deu no que deu.

   

 

 1993: Cybercop e Kamen Rider Black de volta na TV. Mas, novamente, sem serem exibidos os episódios finais. Shaider está perdido nas madrugadas Globais, junto com algumas séries americanas. No Rio Grande do Sul, milagrosamente no final do ano ressurge Sharivan. Até hoje não se sabe como deu-se essa negociação. Enquanto isso, na TV Record, Sharivan, Machineman e Goggle V retornam, diariamente, na Sessão das 8. Ou seja, temos 6 séries novamente, mas a divulgação é praticamente nula. Seria um recomeço usando os mesmos produtos mal-explorados anteriormente?(Continua na próxima matéria....) つづく

 

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