Nos próximos dias 15 e 16 de Julho, será realizada em Fortaleza-CE, a 6ª Edição da Super Amostra Nacional de Animes – SANA, realizada anualmente pela Fundação Cultural Nipônica Brasileira (FCNB). O evento (no qual trabalho há 3 anos, na Coordenação Geral de Tokusatsu,) já se consolidou como o maior do Norte/Nordeste do país, nos que se refere a Animes, Tokusatsu e Cultura japonesa em geral, sendo superado em público somente por eventos do mesmo caráter realizados em São Paulo, mas sobressaindo-se a eles no que diz respeito a estrutura física.

Para essa 6ª Edição do SANA, tradicionalmente realizado no Centro de Convenções da capital cearense, é esperado um público aproximado de 15 mil pessoas durante os dois dias de realização do evento, 3 mil pessoas a mais que o público do ano anterior. Para isso, uma superestrutura está sendo montada, com a realização de atividades comuns a qualquer evento de Anime/Tokusatsu, como a presença de convidados (dubladores, profissionais da área de desenho), presença de estandes e editoras nacionais de Mangás e Comics, concursos de Cosplays, AMV´s e desenhos e Shows de J-Music e J-Pop. Todavia, o maior destaque do SANA 2006, diz respeito ao setor de exibição do evento; serão nada mais nada menos, que 7 salas de exibição, com capacidades que vão de 100 a 1200 lugares.
Durante esse mesmo período, serão realizados em SP capital, mais uma edição da AF (Anime Friends), e da Animecon, dois dos maiores encontros de fãs da cultura japonesa do Brasil. Artistas internacionais, shows, estandes de editoras, e concursos variados estão entre as atrações dos dois encontros, que anualmente, chamam a atenção pela presença de públicos consideráveis, que se deliciam ao encontrar amigos, conhecer novas pessoas e principalmente manterem contato com artistas antes só vistos (ou ouvidos) em seus computadores. A essa altura, o leitor já deve estar indagando o porque dessas descrições sobre eventos diferentes de Anime/Tokusatsu em estados distintos (SP e CE). Para o desenrolar dessa matéria, é necessária essa descrição básica sobre alguns eventos realizados em nosso país; essa descrição permitirá ao leitor comprovar a veracidade das informações que serão vistas ao longo do artigo, chegando a mesma conclusão (ou não) deste escritor.
Como o leitor pôde perceber, os eventos de Anime, realizados em nosso país, mantém diferenças consideráveis em suas estruturas. Há alguns anos atrás, apenas RJ e SP, podiam afirmar sua exclusividade em eventos desse tipo, no Brasil; contudo, isso está mudando. O sucesso do Anime e do Tokusatsu (ainda que no passado) nas telas nacionais, fez com os eventos culturais japoneses, se espalhassem pelo país, e esse fenômeno no Nordeste, merece destaque. Todavia, seja em Natal-RN (SAGA), Aracaju-SE (Kanimecon), Fortaleza (SANA) ou mesmo Recife-PE (Superherocon, Animerecife, Omake), os eventos de Anime e Tokusatsu realizados no Nordeste do país seguem sempre uma linha em comum: o foco maior a área de exibições e projeções. Esse é um fenômeno comum, nos eventos nordestinos, e um tanto curioso, que acaba por exibir as diferenças entre o público de eventos do Norte e do Sul do país. Como o T-R tem por foco principal o Tokusatsu, creio que podemos nos focar especialmente aos efeitos desse fenômeno nas exibições desse tipo de programação realizadas nos eventos nacionais. Trabalho há pouco mais de 3 anos, na Coordenação Geral de Tokusatsu do SANA, e presencio anualmente um comportamento excêntrico do público cearense, no que diz respeito as salas de exibição, que ocupam aproximadamente 70% da ênfase do evento. É comum no norte do país, o público se entreter quase que exclusivamente nas salas de projeção de um evento. Filas nas entradas das salas e auditórios, para assistir seriados clássicos exibidos na década de 80 na TV Manchete, são constantes, por maior que seja o volume de atrações que se possua nos espaços externos dos locais de realização. A associação do evento, a um Cinema, é constante, como se o primordial ao se pagar ingresso, seja assistir filmes e vídeos variados durante todo o dia, ignorando-se assim palestras, apresentações, shows e até mesmo o contato com pessoas que também estão no evento. Isso acarreta uma mudança especial da política de realização dos eventos no Norte do país, reduzindo na maior parte dos casos, o número de dias do próprio evento, em detrimento de gastos com a locação de grandes espaços privados, que possam atender a demanda do público, com salas espaçosas e confortáveis para grandes sessões de projeção aos visitantes.

Por outro lado, no Sul do país, o perfil de estruturação da AF ou da Animecon é diferenciado, se comparado aos eventos do Norte do país. O setor de exibições desses eventos, não representa uma porcentagem sequer de 30% do total das atividades programadas, e o público em si tende a concentrar atenção em atividades alternativas, oferecidas pelo próprio evento (que na maior parte dos casos também são oferecidas nos eventos do Nordeste). São os chamados eventos “encontrões”, onde se pode simplesmente passear e visitar estandes durante todo o dia, fazendo novas amizades ou apenas aproveitar os shows oferecidos pelo evento, junto a sua turma de amigos. É comum, a terceirização de pequenas salas de exibição, como tradicionalmente vem sendo feito pela Anime Friends, onde o evento disponibiliza somente pequenos espaços para exibições simples, outorgando a quem estiver interessado, toda a responsabilidade pelo equipamento e material a ser exibido. Uma política oposta à política de qualquer evento nordestino, que se responsabiliza diretamente pela estruturação de grandes salas de projeção, com capacidades que satisfaçam as expectativas do público. Como se pôde perceber, são notórias as diferenças entre os eventos de Anime/Tokusatsu no Norte e no Sul do país. A política de estruturação dos eventos segue primordialmente, no meu ponto de vista, o apelo do público e de suas necessidades. Podemos constatar assim, que a quantidade e o perfil de atrações presentes em um evento do Sul, é relativamente semelhante as atrações presentes em um evento do Norte do país, com muitas atividades comuns como palestras, concursos e shows. Todavia... é o próprio público dos eventos que se diferencia...

Mas, porque o perfil do público visitante de eventos é tão diferenciado, no Norte e no Sul do país? O que acarreta toda essa diferença, gerando essa diferença de comportamentos tão grande entre os dois públicos? Tenho uma opinião, a qual vou apresentar agora; cabe ao caro leitor, concordar ou não com ela. No que diz respeito a Tokusatsu devemos sempre ser racionais e procurar respostas plausíveis para os questionamentos que possam surgir. Acredito que a grande procura as salas de exibição de Tokusatsu, nos eventos do Norte do país (Como aqui em Fortaleza, por exemplo), constatem tão somente, a carência do público em relação a esses seriados. Essa carência passou a ser gerada desde os últimos anos da TV Manchete, quando a emissora enfrentava sérias dificuldades financeiras. A programação regional da TV Manchete, em muitos estados do Nordeste, ficou a cargo das retransmissoras locais que podiam livremente optar por retransmitir ou não as exibições nacionais da emissora. Assim, seriados como Kamen Rider Black RX e Solbrain (para não citar outros), exibidos no ano de 1999 não tiveram seus últimos episódios exibidos em muitas capitais nordestinas. Com a extinção da emissora, o público fã de Tokusatsu das capitais nordestinas do país, viu-se praticamente perdido, sem nenhuma perspectiva de novo contato com suas séries. Essa perspectiva foi confirmada, e as séries Tokusatsu que não foram exibidas por completo, jamais voltaram a ser exibidas nas telas nordestinas. O mesmo não se pode afirmar, de estados do Sudeste e Sul do país. Mesmo após o fim da TV Manchete, as séries de Tokusatsu clássicas exibidas nos anos áureos da emissora, continuaram a ser exibidas corriqueiramente em canais como a TV Record, e outros canais de cunho local, que possuíam sinal estritamente local. Os fãs de Tokusatsu do Sul do país tiveram uma “sobrevida” no contato com suas séries preferidas, mas infelizmente no Nordeste do país, os sinais de transmissão dos canais aonde as séries ainda eram transmitidas era muito fraco, praticamente impossibilitando o reencontro dos fãs com os seriados. O maior contato do público do Sul e Sudeste do país com as séries de Tokusatsu, em relação ao público do Norte e Nordeste, reflete-se hoje na procura pelas salas de exibição nos eventos de cultura japonesa. O público visitante, nos eventos das capitais nordestinas, adentra nas salas de projeção, “faminto” e ansioso por reencontrar séries que não assistem, muitas vezes, há mais de 15 anos. A necessidade em reatar contato com seus heróis prediletos, antes “mortos” com a extinção da Manchete, é extrema. Por isso, os eventos do Norte do país tendem a investir muito em espaços de projeção, já que a procura por esse tipo de atividade é quase o foco principal dos encontros; a carência do público por tais seriados, praticamente obriga os eventos a essa política de estruturação. Isso não é constatado no Sul. Tendo contato com as séries de Tokusatsu por um pouco mais de tempo, o público sulista de eventos, tende a focar atenção a novidades que lhe chamem mais a atenção; procura outras atividades, sem comprometer-se a passar todo o dia do evento em alguma sala de exibição, assistindo algo que já acompanharam por mais tempo que o público nordestino. O leitor pode concordar ou não com esse ponto de vista que possuo. Essa justificativa que lhes apresentei pode não ser unicamente a responsável pela enorme diferença entre os públicos de eventos do Norte e do Sul do Brasil (e acredito que ela não é a única). Mas, sem dúvida nenhuma, esse é um dos motivos pelo qual os eventos nordestinos de incentivo a cultura japonesa, invistam bem mais em Exibição que os eventos do Sudeste.
Ainda assim, acredito que o perfil do público nordestino de eventos de Anime/Tokusatsu, irá modificar-se com o decorrer dos anos. A conscientização das atrações e de outras atividades presentes no evento, farão com que aos poucos, a procura demasiada por salas de projeção diminua.

Acredito que um bom setor de exibições, e uma boa estrutura física que proporcione prazer ao público visitante e dê suporte as projeções ofertadas, é primordial a qualquer evento do Brasil. No entanto, a procura exclusiva a projeções e exibições, deve ser limitada, através de um trabalho conscientizador e alternativo, onde o público possa ter uma boa estrutura de exibição com conforto e qualidade, sem perder as diversas atrações ofertadas pelo evento em si.
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